Revisão O Homem do Norte | O herói de mil faces

em seu livro O Herói de Mil Faces, o escritor e mitólogo Joseph Campbell fala sobre esse personagem de infinitos nomes que aparece em histórias de diferentes povos ao redor do mundo, em diferentes épocas e que enfrenta inúmeros desafios que, no fundo, são a mesma jornada. É o monomito, a jornada do herói que todas as culturas – do antigo ao moderno ao pop – reencenam. É uma mistura do real, místico e simbólico que povoou nosso imaginário desde que éramos pessoas. E o homem do norte é precisamente a reencarnação deste herói de mil faces.

Mas o novo filme do diretor Robert Eggers (O farol) traz uma roupagem tão interessante para essa estrutura já tão conhecida que não há outra maneira de descrever o recurso além de ser magistral. É o cinema em estado bruto, encantando com as imagens e trazendo o fantástico para o mundano.

Isso porque é, ao mesmo tempo, um retrato histórico fiel do povo escandinavo no final do século IX e um retrato de seus costumes, apresentando todos os seus ritos e crenças. E o que o torna tão único e poderoso é como ele consegue aproveitar essa fidelidade quase antropológica para explorar toda a carga simbólica vinculada a cada um desses elementos, aproveitando essa força para fazer sua história crescer.

O que faz o o homem do norte um filme tão único é como ele une essas três esferas para recriar toda uma cultura – e isso é muito raro de se ver no cinema. Em pouco mais de duas horas, ele amarra real e fantástico não apenas para impressionar e brincar com o que é ou não é verdade. Porque não importa. O que realmente importa aqui é a carga simbólica dos deuses, rituais, crenças e costumes e como tudo isso orienta a vida de um povo.

Mais do que um retrato histórico, The Northman explora a cultura nórdica para recontar um mito universal.

É aí que o filme se aproxima não apenas do monomito de Campbell, mas do próprio conceito do mito: essa narrativa que carrega um significado maior do que a própria história. Isso se manifesta na jornada de vingança do príncipe órfão, mas também nos próprios caminhos que ele percorre para fazê-lo.

O que Eggers faz é trazer o mito para o público ao mesmo tempo em que seu personagem vive o seu. De uma forma tão crua quanto bela, o diretor aproveita todo o simbolismo e significados ligados aos mitos nórdicos para significar a jornada de seu herói, fazendo o homem do norte ser um verdadeiro épico no sentido mais tradicional do termo.

história universal

Tanto estamos olhando para esse monomito que a própria trama de o homem do norte é bem simples. É a história universal da vingança familiar, o velho arquétipo da luta do filho contra o tio usurpador. ESTÁ O Rei Leão com vikings ou, se preferir, uma versão mais crua e brutal do clássico Aldeia — e, não por acaso, o personagem principal se chama Amleth (Alexander Skarsgard).

A história de vingança nos é familiar, mas a forma como é apresentada dá ao filme seu charme.

Mas o maior trunfo do filme não é a originalidade de seu roteiro. Mesmo sendo muito bom, o que impressiona são as peles com que ele veste essa estrutura que nos é comum. Todas as reviravoltas e situações apresentadas na jornada pessoal de Amleth são muito bem construídas, da mesma forma que os personagens são desenvolvidos para que você entenda as motivações de cada um e a dor de suas perdas.

Neste ponto, o herói de Skarsgard é o mais marcante. Além de ser o centro dessa narrativa de vingança – algo que você compra cedo, quando ainda criança e desaparece no mar com um mantra de ódio e ressentimento – a forma como o ator retrata esses sentimentos é impressionante. Todo o seu gesto na batalha incorpora muito bem a fera que ele se tornou ao longo dos anos e isso é fundamental para você entender todas as suas ações a partir desse ponto.

O filme explora os símbolos nórdicos para dar um significado que faça sentido ao enredo em si.

É aí que o jogo do diretor entre o real e o simbólico faz muito mais sentido. Da mesma forma que vemos Amleth praticamente se tornar uma fera para atacar uma vila eslava – em uma incrível sequência de tiros – ele se torna esse espírito de vingança que fala com todas as crenças daquela gente. E Eggers explora essas diferentes camadas de significado entre personagens e espectador para dar peso à loucura em que seu herói mergulha.

Ao mesmo tempo, nada é maniqueísta e tão simples quanto um conto infantil e isso é algo que até alguns personagens apontam para Amleth e sua visão de mundo ingênua. Assim, fica fácil entender as motivações do vilão Fjölnir (Claes Bang) e até se apegar ao personagem que ele se torna a partir de um determinado momento.

Anya Taylor-Joy está mais uma vez incrível, mas dessa vez o filme não é dela (Imagem: Folheto/Universal Pictures)

O grande ponto é que o homem do norte sabe aproveitar um mito clássico tanto para extrair o que há de mais forte e significativo que aquela narrativa carrega quanto para subverter algumas expectativas. E isso vai tanto da grande reviravolta na trama quanto em situações mais específicas, como a relação entre Amleth e Olga (Anya Taylor-Joy) e o próprio fato de o guerreiro se tornar escravo para cumprir seu destino e encontrar seu tio.

cinema de verdade

Como dito, a grande força do filme é a forma como ele une elementos históricos e simbólicos para dar um peso muito particular ao seu enredo. E essa não é uma tarefa fácil, embora o diretor Robert Eggers consiga equilibrar muito bem todas essas perspectivas.

A forma como o diretor usa o imaginário mítico para dar peso às motivações de seus personagens e como isso é apresentado na tela é incrível (Imagem: Reprodução/Universal Pictures)

Por um lado, ele traz toda a dureza da cultura escandinava em um retrato muito fiel de como eram essas pessoas em seus primeiros contatos com o resto da Europa. Tudo é muito cinza e marrom, marcando não só a sujeira e desolação do ambiente, mas a crueza do próprio espírito desses guerreiros. Não por acaso, quando a ação é levada para a Islândia e somos apresentados ao lado mais humano tanto de Amleth quanto de Fjölnir, a fotografia deixa um pouco de lado esse tom acinzentado e ganha algumas novas cores.

No entanto, há também o lado fantástico disso e todo esse aspecto mágico e místico das crenças nórdicas traz uma vida que contrasta fortemente com o tom sem vida do mundano. Da representação da Árvore da Vida à bela cavalgada da Valquíria, a forma como o lado mítico é retratado faz jus ao peso que tem na vida dos personagens.

A direção dos personagens é outro destaque, garantindo que ninguém tenha apenas uma camada (Imagem: Publicidade/Universal Pictures)

Mas a mão do diretor não se faz sentir apenas nessa relação nesse aspecto mitológico. Em uma época em que os filmes de ação estão cheios de edição frenética e cheios de cortes, você não pode deixar de se surpreender ao se deparar com uma batalha campal em um plano geral em que a câmera acompanha o avanço desse meio-urso, meio-lobo guerreiro. e isso deixa claro o quão feroz ele é. Não são os efeitos especiais que fazem dele essa figura imparável, apenas a boa e velha atuação com direção competente.

Vale a pena assistir O Homem do Norte?

o homem do norte É um filme como poucos que vimos chegar aos cinemas. Ele é rico independentemente da perspectiva observada. É uma incrível recriação histórica de um período e seu povo; um estudo sobre os seus costumes e crenças e também um mergulho nos símbolos e mitos que marcam esta cultura.

O Homem do Norte é o melhor do cinema (Imagem: Folheto/Universal Pictures)

Mas é alinhando essas três esferas que vemos como ela é única. É a prova de como a Sétima Arte é tão poderosa e mágica quanto um ritual escandinavo. Não apenas por nos fazer viver e reviver certas histórias, mas por trabalhar tão bem com os significados por trás dessas imagens para nos tirar do mundo comum para o fantástico. o homem do norte é o cinema em estado bruto.

É por isso que, embora o enredo de Amleth já nos seja tão familiar, ele ainda nos pega e tem muito a dizer. ESTÁ O Rei LeãoIsso é Filhos da anarquiaIsso é Aldeia. São as lendas e mitos que precederam essas histórias. E quem veio primeiro? Não importa.

O que importa é que o mito é imortal e é nessas atualizações e encenações que ele se mantém vivo — e, nesse sentido, o homem do norte é uma forma magistral de manter esse herói de mil faces presente em nosso imaginário.

o homem do norte está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garantir a sua entrada ticket.com.

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