Quando a inflação vai diminuir? Para economistas, fatores que elevam preços vão persistir nos próximos meses

A inflação está em alta e não há expectativa de alívio no curto prazo. São muitos os fatores que pressionam os preços – locais e internacionais – e dificilmente todos vão ceder nos próximos meses. Os aumentos da taxa básica de juros promovidos pelo Banco Central ainda não conseguiram conter os índices inflacionários. Nesse sentido, a Selic tende a permanecer em patamar elevado por muito tempo, podendo até subir acima das expectativas até o final de 2022. A avaliação é feita por diversos economistas consultados pelo InfoMoney.

Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 1,06% em abril, a maior variação para o mês desde 1996. No acumulado de 12 meses, o indicador A inflação oficial a taxa foi de 12,13%, maior nível desde outubro de 2003. Alimentos e bebidas, além de transporte, foram os responsáveis ​​pelos maiores impactos. Por outro lado, o fim da bandeira de falta de água na conta de luz ajudou a conter o IPCA de abril em relação a março (1,62%). Mas o nível continua alto.

“A persistência da inflação já está acontecendo. O núcleo da inflação e o nível de difusão tiveram forte aceleração”, observou André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em abril, os aumentos se espalharam por um número maior de itens, com a taxa de difusão em 78,25%, a maior desde janeiro de 2003. Ou seja, a inflação está mais disseminada.

Vários fatores pressionam a inflação não só no Brasil, mas no mundo. Eles vêm se acumulando desde meados de 2020, quando, após alguns meses de paralisação no início da pandemia de Covid-19, a demanda internacional por produtos voltou com força, na esteira de pacotes de estímulo lançados por vários países. A oferta não acompanhou, houve paradas de produção na China, gargalos logísticos e aumentos gerais de custos.

Antes que a situação se normalizasse completamente, veio a invasão da Ucrânia pela Rússia e uma nova confinamento na China, desta vez em Xangai, reduzindo a oferta de produtos no mercado internacional – e mais uma vez interrompendo as cadeias de suprimentos. A interrupção do comércio com a Ucrânia e a Rússia fez disparar os preços de produtos com forte impacto na economia brasileira, como petróleo e derivados, além do trigo.

Como é impossível saber a duração e o alcance da guerra, é provável que os preços dessas commodities continuem altos. Ao mesmo tempo, novas ondas de contaminação por Covid e mais paralisações de produção na China não podem ser descartadas, dada a política de tolerância zero do país ao vírus.

Ao mesmo tempo, como o atual processo inflacionário é um fenômeno mundial, os Estados Unidos começaram a aumentar sua taxa básica de juros, e o mesmo deve acontecer em outros países desenvolvidos. A inflação acumulada em 12 meses nos EUA está em 8,3%. Nesse cenário, o Brasil já começou a perder dinheiro com investidores internacionais, que preferem aplicar seus recursos em títulos de economias maduras quando as taxas de juros lá sobem.

Essa reversão de fluxo tem um impacto na taxa de câmbio. O dólar voltou a subir em relação ao real após um período de baixa. “A troca deixou de ajudar. Não acho que o dólar volte a cair abaixo de R$ 5 com a alta dos juros nos EUA”, comentou Marcelo Kfoury, coordenador do Centro Macro Brasil da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da FGV.

O dólar valorizado encarece ainda mais os produtos importados. Itens como óleo e trigo estão na base da economia e impactam desde o gás de cozinha até o pão francês. No âmbito doméstico, as incertezas em relação às eleições presidenciais deste ano podem contribuir para uma desvalorização ainda maior do real.

Combustíveis e alimentos caros penalizam principalmente os mais pobres. O desemprego continua alto e parte da população está saindo da pandemia mais empobrecida. “O valor da cesta básica em relação ao salário mínimo está em um dos patamares mais caros da história”, disse Alan Gandelman, CEO da corretora Planner.

comida e luz

Para Kfoury, no front doméstico, algum alívio pode ser sentido no futuro próximo, dependendo do resultado da safra atual de grãos. Em seu último levantamento, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima um aumento de 6,4% na produção de grãos para o ciclo 2021/2022 em relação ao anterior.

As commodities, no entanto, permanecem em patamar elevado devido a fatores externos ao Brasil, como a guerra na Ucrânia. “Enquanto durar a guerra, duas áreas importantes serão afetadas: a oferta de insumos (industriais), também deprimida pela crise confinamento na China) e os preços do petróleo, gás e outras commodities, como trigo”, disse Gandelman.

Kfoury, por sua vez, acredita que o fim da cobrança da bandeira de escassez de água na energia elétrica deve continuar tendo efeitos mitigadores nos próximos meses. André Braz ressalta, porém, que os reajustes promovidos pelas distribuidoras podem frustrar essa perspectiva.

Dado o grande número de fatores que pressionam a inflação, a maioria dos quais o Brasil não tem controle, economistas estimam que o IPCA não deve ter queda significativa neste ano, embora profissionais do mercado esperem um índice de 7,89% em 2022, segundo a última edição do boletim Focus do Banco Central.

Essa estimativa, no entanto, vem subindo semana a semana – e a última edição do Focus é em 29 de abril, antes da divulgação dos dados do IBGE. O boletim é semanal, mas sua regularidade fica comprometida por causa da greve dos funcionários do BC. “O cenário é mais de alta do que de desaceleração, e as estimativas de curto prazo só aumentam”, disse Braz.

Leia também:

interesse nas alturas

Ao mesmo tempo, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) eleva a taxa Selic. Na última reunião, no início de maio, a taxa foi elevada em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano. O Copom começou a elevar os juros em março de 2021, mas os efeitos sobre a inflação ainda não foram sentidos.

Isso porque grande parte da pressão inflacionária vem dos custos – da oferta – e está ligada a questões externas. Há, no entanto, pressões de demanda e é possível que algum efeito da alta da Selic comece a aparecer em breve. “Não é possível saber se o aumento dos juros terá ou não a eficácia desejada, mas no mundo inteiro funciona”, declarou José Júlio Senna, do Ibre-FGV. “A inflação pode levar tempo para diminuir.”

Senna diz que há inflação de demanda, apesar do fraco desempenho da economia brasileira. Segundo ele, os últimos números do IBGE mostram que houve um “desvio” na demanda das famílias do setor de serviços para o setor de bens de consumo.

O economista lembra que o Auxílio Brasil, que tem valor superior ao antigo Bolsa Família, e a autorização de saques extraordinários do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) alimentam a demanda por bens. O aumento dos gastos públicos é outro fator de pressão.

“Do ponto de vista da política monetária, é isso que pode ser feito (aumentar os juros). A política contracionista ajuda a conter a demanda e sinaliza que o Banco Central está atento e comprometido em conter a inflação”, destacou Senna.

Ancoragem

Há, no entanto, dúvidas sobre os efeitos de tal sinalização. Segundo Braz, à medida que os juros sobem e a inflação não baixa, diminui a capacidade do Banco Central de “ancorar expectativas”. Em outras palavras, a autoridade monetária não pode transmitir confiança aos agentes econômicos de que conseguirá conter a inflação conforme planejado.

Nessa lógica, os agentes econômicos tendem a ampliar suas projeções de inflação e trabalham a partir desses dados expandidos. “Os empresários repassam suas expectativas de aumento de preços antes mesmo que a inflação se manifeste nos custos”, explicou Braz.

Para evitar essa antecipação de expectativas, o BC precisa recuperar sua capacidade de ancoragem. “É importante ter alguns meses de boa inflação para mudar as expectativas”, observou Kfoury. Nesse sentido, os economistas estimam que a autoridade monetária manterá os juros em patamar elevado por muito tempo, podendo haver aumentos além do esperado.

Na ata de sua última reunião, o Copom prevê um novo aumento na próxima reunião, mas de “magnitude menor” do que o realizado no início de maio. No último boletim Focus, a previsão era de que a taxa Selic estivesse em 13,25% ao final de 2022. “O Copom sinalizou para parar (os aumentos) em junho, mas precisa concordar com os russos, literal e metaforicamente” , disse Kfoury, em um comunicado. referência à famosa frase atribuída ao astro Mané Garrincha.

Analistas estimam que as taxas de juros podem subir mais do que o esperado. Gandelman, por exemplo, acredita que é possível um aumento de 1 ponto percentual na próxima reunião do Copom e outro de meio ponto percentual até o final do ano, elevando a Selic 2022 para 14,25%. Para Kfoury, após a reunião de junho, quaisquer aumentos adicionais só devem ocorrer após as eleições.

Leia também:

Inércia

Braz acrescenta que a inflação de 2022 terá efeitos em 2023, dado o alto grau de indexação ainda presente na economia brasileira. Aumentos de aluguéis, mensalidades escolares, planos de saúde e outros são transitados de um ano para o outro. “Mesmo com os juros altos, a indexação, por inércia, segura os repasses até 2023”, declarou.

O fato é que o regime de metas de inflação foi quebrado. No ano passado, a meta era de 3,75%, mas o IPCA foi de 10,06%. Em 2022, a meta é de 3,5%, e não será atingida. A meta para 2023 é de 3,25%, e provavelmente também não será honrada. “Serão três anos seguidos quando a meta for superada”, afirmou Kfoury.

Braz ressalta que não há outro instrumento “tão contundente” para conter a inflação quanto a elevação dos juros. Fora da política monetária, ele diz que algumas medidas podem surtir efeito, como ampliar o compulsório dos bancos e aumentar os impostos. Estas medidas, especialmente a última, são consideradas impossíveis em ano eleitoral.

“A política monetária vai para um lado, mas para o outro há um governo querendo ser reeleito”, observou Brás. O presidente Jair Bolsonaro (PL) é pré-candidato à reeleição.

registre-se em Impulso e receba um resumo semanal das novidades que movimentam seu bolso — de forma fácil de entender:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.