‘O Homem do Norte’ desmonta a fixação certa por vikings – 11/05/2022 – Ilustrado

As narrativas de fantasia épica têm sido cada vez mais instrumentalizadas por extremistas de direita e supremacistas brancos nas últimas décadas. Aconteceu com “O Senhor dos Anéis” e está acontecendo com “The Man in the North”, filme do americano Robert Eggers lançado agora que tenta recriar a atmosfera do mundo viking, retratando a Islândia há mais de mil anos.

Não é difícil entender por que a direita raivosa e racista gosta de se apropriar desse tipo de história. Para começar, as tramas e personagens são muitas vezes inspirados nas mitologias do norte da Europa – geralmente as da Escandinávia, mas às vezes também as de povos celtas, como os galeses e irlandeses -, retratando culturas supostamente puras e livres de qualquer influência “não branco”.

Seus personagens masculinos representariam um ideal descomplicado de coragem marcial e resistência indomável ao inimigo, sem dúvida um prato cheio para quem quer se matricular em um clube de tiro. E as mulheres nessas narrativas costumam exibir beleza padronizada e longos cabelos loiros que reforçam o estereótipo da pureza européia.

Pelo menos alguns dos lunáticos que invadiram o Congresso dos EUA logo após a eleição de Joe Biden em janeiro do ano passado se encontram representados nesses elementos.assim como os “Tupinivikings” brasileiros que aderiram ao bolsonarismo – durante a campanha eleitoral de 2018, por exemplo, surgiram memes comparando Jair Bolsonaro a Faramirpersonagem heróico e abnegado de “O Senhor dos Anéis”.

Para que tais histórias funcionem como um simples roteiro ideológico para esses grupos, porém, é preciso ignorar a complexidade e a ambiguidade presentes nelas. É nesse ponto que “O Homem do Norte” pode, ironicamente, funcionar como uma ferramenta para desmantelar os contos de fadas supremacistas, pois o filme deixa claro que não havia nada de “europeu” nos guerreiros loiros e peludos de era dos vikings.

A afirmação pode parecer maluca, mas esse é exatamente o resultado da pesquisa detalhada realizada pela equipe de Eggers durante a produção do longa. O diretor contou com a ajuda de alguns dos principais arqueólogos que estudam a Escandinávia medieval, como o britânico Neil Price, da Universidade de Uppsala, na Suécia, para reconstruir o cotidiano e o modo de pensar dos nórdicos no século IX dC.

O apego quase obsessivo a essas referências trouxe para a tela uma cultura que lembra muito mais, digamos, os Tupinambás que dominaram o litoral brasileiro nos anos 1500 do que qualquer sociedade que hoje classificaríamos como europeia.

De fato, as estruturas tribais escandinavas dessa época, com seu apego a códigos de vingança, sua religião fortemente influenciada pelo xamanismo – incluindo a crença de que certos guerreiros podiam se identificar espiritualmente com lobos, corvos e ursos – e sua anarquia política não poderia ser mais longe da suposta defesa da “cultura ocidental” feita pela extrema direita hoje.

Sem falar, é claro, dos supostos “valores cristãos” dos ideólogos de hoje. No filme, os personagens cristãos aparecem apenas como escravos dos escandinavos, sendo acusados ​​de cultuar cadáveres torturados, uma forma plausível de imaginar como um viking pagão veria um crucifixo.

Em suma, o protagonista Amleth e os outros vikings em “The Man in the North” claramente não se consideram “ocidentais”, “europeus” – e talvez nem mesmo como “brancos”. Seu horizonte cultural é muito mais estreito, peculiar e difícil de conceber com a mente do século XXI. E também é irônico que a amada do protagonista seja uma serva de origem eslava, enquanto boa parte das teorias racistas dos séculos 19 e 20 consideram os povos eslavos uma “raça inferior”, atrasada e indigna de ser considerada 100% europeia. Hitler não gostou disso.

Finalmente, qualquer um tentado a ver o filme como uma glorificação da violência masculina precisa deixar de lado o fato de que a vingança implacável desencadeada por Amleth é essencialmente fratricida e autodestrutiva. É significativo que a extrema direita se reconheça nesse tipo de espelho.

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