No julgamento de Johnny Depp, Amber Heard forçou uma lágrima – 11/05/2022 – Fernanda Torres

“E tudo isso por nada! Por Hécuba! O que é Hécuba para ele, ou ele para Hécuba, que chora assim por ela?” “Aldeia”ato dois, cena três.

Shakespeare sabia. A lágrima do ator tem um valor de mercado muito alto.

Para o intérprete, não basta, claro, derramá-lo sem levar em conta o personagem. Há casos, fenômenos fisiológicos que se desfazem com uma facilidade impressionante, mas não convencem a pele alheia. E também há quem convença, mas não chore.

Você pode simular uma careta, um desdém, uma alegria profunda ou uma raiva acumulada sem grandes malabarismos técnicos. A ciência atesta que o sorriso falso não aciona todos os músculos faciais tensos pelo francomas a diferença é imperceptível para o espectador médio.

A lágrima, porém, é o milagre concreto do sentimento, secreção de milhões de circuitos sinápticos, memórias cavadas no tempo, que acabam produzindo uma mistura de água e sais minerais, excretados pelo ducto lacrimal. A lágrima é a prova física da emoção. Ou você cuida disso, ou não.

Dentro “Corra”, filme da Jordânia casca, a sogra racista hipnotiza o aspirante a genro agitando uma colher de chá de café em sua xícara. Um carro, um tiro no escuro sem truques ou cortes, avança lentamente, na direção de Daniel Kaluuya. À medida que a lente se aproxima, seus olhos lacrimejam até explodirem em um choro descontrolado.
Certamente, o racismo de que trata o filme foi um dos gatilhos que levaram o ator a chegar àquele estado abismal de medo e fragilidade, mas desconfio que não seja só isso. A foto é um raio-x assustador da alma de Kaluuya e fez história.

o último close de “Noites de Cabiria” de Federico Fellini, é outro momento sublime lacrimoso da sétima arte. Depois de sofrer o diabo, Giulietta Masina caminha pelo parque escuro e, sem avisar, rompe a quarta parede, olha para nós com os olhos muito úmidos e… sorri com a inocência intacta.

Faço esta longa introdução sobre o choro nas artes, talvez para esconder a vergonha do real motivo da crônica. Admito, sem orgulho, que me viciei Julgamento de Johnny Depp e Amber ouvitransmitido ao vivo pela internet.

Amber não tem o carisma de seu ex-cônjuge e parece ter forjado evidências para chantageá-lo para a separação. Ela diz, porém, a favor da menina, a difícil convivência com um homem mais velho e mais poderoso que ela, um confesso viciado em álcool e drogas.

Como são dois atores, impõe-se o caráter teatral da corte.

O cavalo de Jack Sparrow foi Jack Sparrow nos confrontos. Misterioso, irônico e sedutor, Depp brindou o júri com uma compilação de seus melhores momentos na tela. Investido na dignidade do louco, a estrela confirmou o uso e abuso de substâncias lícitas e ilícitasjurando, em plena era MeToo, ser vítima da calúnia e agressão de um maníaco depressivo oportunista.

Então chegou a vez de Amber narrar sua versão do conturbado e curto casamento, vivido entre ilhas paradisíacas nas Bahamas, mansões na Austrália, reabilitações no Caribe e coberturas cinematográficas em Los Angeles. Uma vida comparável à dos deuses do Olimpo, irresistível ao voyeurismo de mortais como eu.

No Quizombas envolvem vomitar, uivar, beber e xingar; espionagem mútua, traições, supostas buscas por cocaína e estupro com uma garrafa de vodka; além de um dedo decepado dele e um cocô dela, deixado na cama do casal. Uma mistura desconcertante de miséria humana e privilégios inéditos.

Descrevendo a tristeza que a atingiu, ao ser empurrada violentamente contra o chão, Amber detalhou o belo piso de madeira encerada da sala, o bar em forma de “L” e seu lindo estúdio particular de pintura, onde, por vingança, Depp cobriu o pinturas de artistas amadores com tinta preta.

O problema com o depoimento do réu é que o papel de esposa amorosa exige lágrimas. A menina da novela tem que chorar. E ela tentou muito, puxou onde podia, mas nada saiu. Acusada de falsidade nas redes, ela voltou sob pressão no dia seguinte.

Mais uma vez, o miado engasgado da voz, o vinco nas sobrancelhas e nenhuma prova material do sentimento. E eis que, ao detalhar um acesso de fúria do ex, Amber desabafou: “Não o reconheci mais!”.

A frase desencadeou autopiedade e o choro surgiu timidamente. Com medo de perder o fio, ela repetiu o lema duas ou três vezes, até espremer algumas gotas convincentes. Como atriz, reconheci o processo imediatamente.
Vencida a demanda, Amber virou outra general relaxada. Ela havia prestado contas de uma prestação de US$ 50 milhões, valor da ação movida pelo atual desafeto.

É o que digo, a lágrima tem um valor de mercado inestimável.

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