Inflação: Filhos do Plano Real sabem que preços sobem – 12/05/2022 – Mercado

Stephanie Lopes, 27 anos, reduziu as idas ao shopping e os pedidos de entrega no final de semana. Fernanda Lima, 25 anos, começou a pegar folhetos nos supermercados para monitorar os preços. Iago Madureira, 24 anos, vê o sonho de morar sozinho cada vez mais distante.

Em comum, todos nasceram após o Plano Real, de julho de 1994, que controlava a hiperinflação que castigava a economia brasileira — em junho, às vésperas da implantação do real, os preços acumulavam alta de 4.922% em 12 meses .

Agora, esta geração jovem tem que lidar com o problema de um forte aumento dos preços pela primeira vez.

No período de 12 meses até abril deste ano, a IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) Ele tinha adiantamento de 12,13%segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

É a maior inflação desde outubro de 2003 (13,98%), período em que a geração nascida após 1994 ainda não havia completado 10 anos.

Aos 27 anos, casada e com uma filha, Stephanie busca estratégias para economizar dinheiro, cortando as despesas rotineiras da casa na zona norte de São Paulo.

Usar a máquina de lavar menos vezes por semana é uma das medidas adotadas para tentar diminuir o conta de eletricidade.

“Senti mais a diferença no aumento das despesas de meados do ano passado para cá”, conta ela, que concluiu o ensino médio e trabalha como babá, animadora de festas infantis e organizadora pessoal.

Para Fernanda Lima, que mora no Rio de Janeiro com o namorado, o que mais impacta seu dia-a-dia é a inflação de alimentos no supermercado.

Devido aos preços altos, ela decidiu substituir parte dos produtos da cesta de compras. A consumo de carne bovina e frango diminuiu.

“Agora é normal pegar vários folhetos no supermercado e ficar de olho nos preços”, diz Fernanda, que é formada em gestão de recursos humanos e atua na área de TI (tecnologia da informação).

Carro estacionado na garagem e consumo adiado

No caso de Iago Madureira, o que mais pesa é a inflação do combustível. Portanto, o jovem deixou o carro estacionado mais tempo na garagem.

Quão litro de gasolina acima de R$ 7, ele está se deslocando mais diariamente no metrô do Distrito Federal, onde mora com a mãe.

“Antes, o custo do combustível era em torno de R$ 260, R$ 280, cada vez que abastecia o tanque do carro. Hoje não tenho o luxo de abastecer. Tenho até medo do valor que pode dar.”

As visitas a restaurantes tornaram-se mais escassas. Por precaução, até o plano de morar sozinho foi adiado, segundo o jovem, que é formado em comércio exterior e estuda relações internacionais.

“Sonho em morar sozinho. Mas agora é mais difícil. As contas de luz e outras despesas do dia a dia acabam distanciando esse plano”, diz Madureira, que nasceu em 1997 e trabalha como auxiliar administrativo.

Luiz Antônio Lourenço, 25, também ligou o sinal de alerta com os preços. Nos últimos meses, o jovem começou a pesquisar mais produtos no supermercado antes de fazer compras.

Além disso, ela decidiu adiar a troca do celular e dos móveis e utensílios da casa, no município mineiro de Esmeraldas (60 km de Belo Horizonte), onde mora com o namorado.

Nascido em 1996, Lourenço é licenciado em biblioteconomia e trabalha como assistente administrativo.

“Agora, eu não saio tanto por lazer. Acabo planejando mais antes de fazer alguma coisa. É preciso pensar no longo prazo”, ressalta.

Cenário é “muito ruim”, diz economista

Segundo analistas, o aumento da inflação reflete um conjunto de fatores. A pandemia, por um lado, interrompeu as cadeias produtivas globais. Com isso, gerou falta de insumos e impactou os preços dos bens industriais no país e no exterior.

O Brasil também registrou Pressão do dólar em meio a turbulência política recente, além de problemas climáticos que encareceu as contas de luz e alimentação.

Em 2022, o cenário inflacionário reúne um componente adicional: a Guerra da Ucrânia.

O conflito no Leste Europeu elevou os preços das commodities agrícolas e do petróleo no mercado internacional no primeiro trimestre. O resultado foi pressão sobre alimentos e combustíveis no Brasil.

“O mundo vinha de um período de inflação mais baixa antes da pandemia. Na crise sanitária, havia medidas para estimular a demanda por bens e serviços, mas a oferta não acompanhava esse movimento. Houve um descompasso entre oferta e demanda”, diz o economista. Luca Mercadante, da Rio Bravo Investimentos.

“Este ano também tem os efeitos da guerra. A pressão inflacionária, não só no Brasil, mas no mundo todo, não é passageira. Tem uma persistência maior”, acrescenta.

Mercadante também faz parte da geração que cresceu após a implantação do Plano Real. Ele nasceu em 1999.

Por enquanto, o mercado financeiro projeta IPCA próximo a 8% no período de 12 meses até dezembro de 2022. a mediana das estimativas é de 7,89%conforme boletim Focus, divulgado pelo BC (Banco Central).

A Rio Bravo, por sua vez, projeta inflação de 7,2%. No entanto, o viés é alto na estimativa, diz Mercadante.

Segundo ele, o cenário inflacionário tende a continuar “muito ruim”, mesmo com a perspectiva de desaceleração do IPCA até dezembro, em relação ao patamar atual.

“Continuamos com cadeias produtivas pressionadas”, diz.

Na variação mensal, o IPCA subiu 1,62% em março. Foi a maior alta para o mês desde 1994 (42,75%), antes da implementação do real. Ou seja, o avanço foi o mais intenso para março em 28 anos. A alta desacelerou em abril, mas permaneceu alta (1,06%) – a maior para o mês desde 1996.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.