Homem do Norte: resenha do filme

Se você já conhece o cinema de Robert Eggers para “A Bruxa” ou “O Farol”, encontrará em “O Homem do Norte” um filme diametralmente distante dos dois anteriores, mas igualmente único. Embora continue em sua exploração da psicologia humana, o diretor de 38 anos desta vez aposta em um drama mais clássico, que funciona ao mesmo tempo como um grande esforço contra a corrente dos blockbusters tradicionais.

Veredito

Violento, sanguinário e de proporções épicas, o novo filme do cineasta Robert Eggers segue a proposta narrativa de romper com o tradicional já explorado em “A Feiticeira” e “O Farol”. Desta vez, o diretor conta uma história clássica de vingança, e usa essa premissa bem hollywoodiana para mostrar o quanto o mercado está cheio de histórias fáceis e palatáveis ​​– exatamente o que ele não quer trazer.

O filme é baseado no mesmo conto que inspirou o clássico de Shakespeare “Hamlet”, e gira em torno da saga de vingança do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård). Quando criança, ele vê seu pai, o rei Aurvandil (Ethan Hawke), ser morto pelas mãos de seu próprio irmão, Fjölnir, o Irmão Não-Irmão (Claes Bang), e isso molda completamente sua personalidade.

Fugindo de sua própria morte enquanto vê sua mãe (Nicole Kidman) ser sequestrada por seu cunhado, ele jura vingar seu pai, salvar sua mãe e matar o novo rei. E é com essa fúria que ele cresce disposto a fazer qualquer coisa para alcançar seu objetivo.

Enquanto “A Bruxa” e “O Farol”, que catapultaram a reputação de Eggers, são filmes mais concisos, “O Homem do Norte” tem espaço para se expandir em todos os sentidos.

Afinal, é um épico. O filme tem orçamento de US$ 90 milhões e não mede esforços para mostrar a grandiosidade dos investimentos financeiros e a escala em que a trama opera. Entre incêndios, explosões e lutas em escala épica, “O Homem do Norte” é capaz de fazer o espectador acreditar verdadeiramente que chegará a Valhalla um dia, e que todos os destinos desses personagens estão traçados previamente.

Mesmo assim, “The Man in the North” soa como um golpe para o sistema tradicional de Hollywood de hoje. A trama é separada em capítulos, alguns mais lentos que outros, e a vingança é puramente o que move Amleth adiante.

Enquanto o mercado audiovisual se divide entre streaming de filmes enterrados sem divulgação honesta e blockbusters sem vida fabricados após dezenas de testes de audiência, “O Homem do Norte” mostra que o espetáculo cinematográfico e visual permanece em primeiro plano, e que para isso é não é necessário sacrificar a história.

Dentro de uma trama tão clássica no sentido cinematográfico, que inclui lutas bárbaras, corpos ensanguentados e uma jornada de herói construída de acordo com o livreto, Robert Eggers consegue imprimir seus toques pessoais com uma brutalidade raramente vista nos cinemas hoje. Vai de encontro a tudo que soaria comercial para uma história como essa, deixando de lado o sentimentalismo e até a necessidade de escolhas duvidosas e sacrifícios emocionais que fariam o espectador se conectar com o personagem principal.

A impressão que fica é que tudo isso é feito de propósito para criar uma história endurecida que entrega exatamente o que o filme promete, mas sem palavras mesquinhas que amenizem a dose. É como se “O Homem do Norte” quisesse contornar o sistema e mostrar que o clássico ainda é um clássico. É claro que Eggers não facilita a digestão do espectador, mas transforma o resultado final em um banquete saboroso que compensa muito.

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