Guerra: Finlândia deve aderir à OTAN por medo da Rússia – 12/05/2022 – Mundo

Em uma decisão histórica, O governo da Finlândia anunciou na quinta-feira que pediria “sem demora” que o país nórdico se juntasse à Otan, a aliança militar de 30 membros liderada pelos Estados Unidos. Rússia, cuja invasão da ucrânia motivou a iniciativa, prometeu retaliação contra o vizinho.

Os finlandeses mantiveram a neutralidade militar desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em um acordo tácito com a então União Soviética para evitar um novo conflito como os que os países travaram na luta global.

Eles devem ser seguidos pela Suécia, pondo fim a mais de 200 anos de neutralidade dos vizinhos. O Parlamento de Estocolmo deve se pronunciar sobre o assunto nesta sexta-feira (13). Ambos os países mudaram de ideia e buscaram o guarda-chuva militar dos EUA por medo da agressão russa.

“A Finlândia deve solicitar a adesão à Otan sem demora. Esperamos que as medidas nacionais ainda necessárias para tomar a decisão sejam tomadas rapidamente nos próximos dias”, disseram o presidente Sauli Niinistö e a primeira-ministra Sanna Marin em comunicado.

O pedido deve ser analisado pelo Parlamento local, que já tem maioria para implementar o movimento, após a opinião pública do país se tornar favorável à participação. O secretário-geral da OTAN, o norueguês Jens Stoltenberg, afirmou que o processo será “rápido e tranquilo” e que Helsinque será “muito bem-vinda”. A aliança iniciou um grande exercício com 10.000 soldados em cinco países membros na quinta-feira.

Previsivelmente, os membros da aliança congratularam-se com a mudança, que mudará a arquitetura de segurança do norte da Europa, certamente um efeito colateral que Moscou não esperava quando invadiu a Ucrânia, alegando, entre outras coisas, a necessidade de impedir Kiev de aderir à mesma OTAN.

Na quarta-feira, Niinistö se encontrou com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e disse: “Se nos juntarmos, bem, minha resposta [para Vladimir Putin] você causaria isso, olhe no espelho”.

O mau humor russo no episódio já havia ficado claro com ameaças anteriores de colocar armas nucleares perto das fronteiras finlandesa e sueca e explodiu esta quinta-feira nas palavras do porta-voz Dmitri Peskov. “A expansão da Otan não torna nosso continente mais estável e seguro”, disse ele, acrescentando que a Rússia “definitivamente vê a adesão da Finlândia como uma ameaça à sua segurança nacional”. “A OTAN está vindo em nossa direção. Tudo vai depender de como essa expansão vai acontecer, qual infra-estrutura militar será movida para nossas fronteiras”, acrescentou.

Aceita na aliança, como será, a Finlândia será o país da OTAN com a maior fronteira compartilhada com a Rússia: 1.300 km. A Ucrânia tem 2.300 km, parte dos quais foi violada por Putin em 24 de fevereiro, na maior ação militar na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Peskov teve o cuidado de não repetir a ameaça direta de guerra, como fez a Rússia com a Ucrânia, porque sabe que a situação finlandesa é um fato consumado, que rompe dois tratados (1947 e 1992) entre Moscou e Helsinque. Mais: Espera-se que a OTAN amplie algumas garantias de segurança durante o processo de adesão, embora isso não esteja claro. Uma vez no grupo, atacar um membro significa atacar todos.

Mas o porta-voz voltou a dizer que a Rússia “está preparada para dar a resposta mais incisiva a quem tentar entrar na operação militar na Ucrânia”. O Ocidente apoiou Kiev com armas, dinheiro e inteligência, mas não enviou soldados. “Todos, incluindo a Rússia, querem evitar um confronto direto entre a Rússia e a Otan”, disse ele.um truísmo, dado que ambos os lados têm armas nucleares.

Segundo a imprensa finlandesa, o governo local acredita que os russos poderão cortar o fornecimento de gás natural ao país, embora não o tenham feito com outros estados membros da aliança militar.

A neutralidade nórdica sempre foi sobre a Rússia. A Suécia era um reino expansionista e invadiu seu grande vizinho no século 18, mas em 1809 decidiu se isolar depois de perder a Finlândia para o Império Russo. Nas duas guerras que lutou contra os russos entre 1939 e 1944, a Finlândia conseguiu evitar a anexação pelos soviéticos, mas perdeu 10% de seu território. Esse trauma levou o país a adotar uma política rígida de não alinhamento, semelhante à do vizinho mais de um século antes.

Na prática, porém, a neutralidade era parcial, especialmente no caso sueco. Ambos os países são membros da União Europeia desde 1994, o que lhes dá acesso a uma cláusula de defesa mútua nos padrões da OTAN, embora seja pouco conhecida e ninguém saiba como ela iria desencadear.

A Suécia, em particular, também tem uma postura militar incisiva e alinhada ao Ocidente. Com uma sofisticada indústria de defesa, produzindo grande parte das armas leves antitanque usadas contra Moscou pela Ucrânia, submarinos e caças como o Saab Gripen vendidos para o BrasilEstocolmo opera em sintonia com a aliança militar no ambiente pós-Guerra Fria, participando de vários exercícios conjuntos.

Nos últimos anos, aumentou seus gastos militares e desencadeou o estado de alerta várias vezes devido à turbulência envolvendo a Rússia, como os protestos reprimidos na ditadura aliada do Kremlin da Bielorrússia. Invasões de aviões russos nas margens de seu espaço aéreo são comuns, e duas já ocorreram após o início da guerra, sob protestos de suecos. No país, pesquisas realizadas pelo jornal Aftonbladet esta semana mostrou o apoio de 61% da população para aderir à OTAN, em comparação com um histórico de 20%. O partido que domina a vida política local, os sociais-democratas, também está terminando a revisão de sua política de neutralidade.

Após a remilitarização da Alemanha, anunciada pelo primeiro-ministro Olaf Scholz na forma de um reforço que vai triplicar o orçamento de defesa do país este anoa entrada dos nórdicos na OTAN é o maior efeito colateral da invasão russa para a segurança do continente.

Está a ser comemorado principalmente pela Polónia e pelos três Estados Bálticos, que são ameaçados pela Rússia. “A principal adição aos nossos planos de defesa está nas áreas marítima e aeroespacial. Nosso tempo de reação será reduzido”, disse o chefe das Forças Armadas da Estônia, Enno Mot.

Assim, a mudança deixará a Suíça como reduto neutro do continente. Anteriormente, Genebra e Helsinque compartilharam os holofotes das cúpulas russas com países ocidentais, como no encontro entre Putin e Donald Trump em 2018, realizada na capital finlandesa, ou na russa com Joe Biden, com sede na cidade suíça no ano passado.

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