Guerra da Ucrânia: Turquia rejeita adesão nórdica à OTAN – 13/05/2022 – Mundo

O processo de expansão da OTAN em reação à invasão russa A Ucrânia ganhou apoio de um relatório da Suécia que sugere seguir os passos da vizinha Finlândia e pedir para se juntar à aliança militar ocidental.

Nesta mesma sexta-feira (13), porém, Turquia jogou um balde de água fria com a primeira oposição interna séria à iniciativa. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse que acompanha o caso dos países nórdicos e não tem “visões positivas” sobre a intenção de ingressar no grupo. Único membro da OTAN no Oriente Médio, a Turquia apoia Kiev na guerra, mas é um aliado próximo e ambíguo de Vladimir Putin.

Para que um novo membro seja aceito na aliança liderada pelos EUA, que agora tem 30 membros, os parlamentos nacionais de todos os futuros colegas devem aprovar a medida. Uma rejeição bloqueia o mecanismo.

Erdogan tem uma relação conflituosa com a aliança, que abriga sua histórica arquirrival Grécia, cuja adesão à Turquia em 1952 foi criticada pelo presidente. “Não queremos repetir os erros. Além disso, os países escandinavos abrigam organizações terroristas. Não é possível sermos a favor.”

O líder turco que usou sua postura mais neutra para tentar mediar a paz entre Kiev e Moscoudeu a senha: ele vai querer que a Suécia, em particular, extradite opositores exilados, como membros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ou seguidores de Fethullah Gülen, o clérigo radicado nos EUA acusado de inspirar um golpe contra Erdogan em 2016.

Representantes dos nórdicos vão discutir a situação com enviados da Turquia em Berlim no sábado (14). A resistência turca, que soma à já famosa compra de sistemas antiaéreos da Rússia e a consequente expulsão do programa de caças F-35 dos EUA, ocorre em meio ao tom triunfalista anti-Kremlin da OTAN.

Na quinta-feira (12), a Finlândia anunciou que vai se candidatar para entrar no nato. Esta sexta-feira, o parlamento da vizinha Suécia divulgou um relatório que, embora não seja definitivo, indica que o país quer a mesma coisa.

A percepção de que Moscou representa uma ameaça real aumentou brutalmente nos dois países nórdicos, vizinhos até limítrofes no caso finlandês das terras de Putin, após a invasão da Ucrânia.

“Uma adesão terá um efeito dissuasor no norte da Europa”, diz o texto de 43 páginas, elaborado pelo governo e pelos partidos representados no Parlamento. O texto diz que “as provocações e represálias russas não podem ser excluídas” pela medida, mas que o risco é baixo. “Nossa visão é que não sofreremos um ataque militar convencional como reação a uma eventual candidatura”, disse a chanceler Ann Linde. O relatório abre caminho para a aprovação do pedido pelo Parlamento.

A recomendação deve ser seguida por uma mudança na posição histórica do principal partido do país, os sociais-democratas, que divulga sua opinião sobre a adesão no domingo. Já há maioria na Câmara e na opinião pública a favor da medidacuja aprovação deverá ocorrer no mesmo dia ou na próxima semana.

Além dos turcos, os nórdicos também estão de olho na reação da Hungria, o membro europeu da OTAN mais próximo de Putin. Até agora, o primeiro-ministro autocrático Viktor Orbán apoiou a aliança militar, mas resistiu a ações como o corte nas compras de petróleo russo.

Se a oposição turca for derrotada, a decisão reverterá mais de 200 anos de história. A Suécia se orgulhava de sua neutralidade, decidida em 1809 após a perda da Finlândia para o Império Russo. já o A Finlândia foi neutra desde o fim a Segunda Guerra Mundial, na qual lutou duas vezes contra a União Soviética.

Moscou adotou um tom ameaçador sobre a adesão de Helsinque e fará o mesmo com Estocolmo. O Kremlin disse que a adesão é um risco para a segurança nacional russa, uma terminologia obscura, porque se refere retórica contra a eventual adesão da Ucrânia à OTAN antes da guerra.

A medida mais provável, segundo observadores militares, é a implantação oficial de mísseis com capacidade nuclear para Kaliningrado, uma região russa espremida entre a Lituânia e a Polônia, às margens do mesmo Mar Báltico que faz fronteira com a Suécia e a Finlândia. Estocolmo já disse que isso não significaria muito, considerando que os russos já têm essas armas lá.

Enquanto isso, a empresa estatal de eletricidade da Rússia anunciou que, alegando problemas de pagamento, cortaria a eletricidade que fornece à Finlândia no sábado. A razão, claro, é o anúncio da OTAN. O país importa 10% de sua luz da Rússia.

Por outro lado, a OTAN, na figura de Secretário-Geral Jens Stoltenberg, comemorou o anúncio finlandês e já disse esperar o sueco. Ambos os pedidos, se não houver reviravolta no caso de Estocolmo, serão analisados ​​oficialmente na cúpula de junho da aliança militar ocidental, a ser realizada em Madri.

A questão que fica é sobre as garantias provisórias de segurança, já que um processo de adesão à OTAN dura de oito meses a dois anos, normalmente, após o registro formal. Ninguém quer esperar tanto, especialmente se Putin conseguir acabar com a guerra contra Kiev sem esgotar suas forças.

A decisão dos países nórdicos é mais um efeito geopolítico extremo da guerra, que começou em 24 de fevereiro. Toda a estrutura de segurança europeia está passando por uma reorganização, e diferenças de interesses entre os membros da OTAN estão surgindo dia a dia, embora a aliança tenha renovado seu senso de missão.

Desde então, a Rússia está sujeita a sanções econômicas nunca vistas nos tempos modernos, todo o quadro energético europeu está em xeque, a OTAN armou fortemente a Ucrânia e arriscou uma Terceira Guerra no processo, A Alemanha anunciou um programa de remilitarização e a China olha para a situação da aliada Moscou com uma mistura de preocupação e ambição em um mundo polarizado.

Apesar da atitude oficial, nem a Suécia nem a Finlândia são totalmente neutros. Ambos são membros da União Europeia, bloco político que tem uma cláusula em seu tratado fundador que prevê assistência militar a colegas em caso de agressão. Mas o aparelho nunca foi usado.

No caso da Suécia, um país muito mais desenvolvido e militarmente incisivo do que a Finlândia, há outras implicações para a adesão. Ao longo dos anos, Estocolmo sempre procurou atuar em linha com a estratégia ocidentalparticipando de manobras militares conjuntas e compartilhando inteligência.

Mas, ao mesmo tempo, sempre buscou ter sua própria indústria de defesa avançada. Possui produção naval e aeroespacial, como atesta a Caças Saab Gripen comprados pelo Brasil, e cerca de 85% de sua receita vem das exportações. Juntar-se à OTAN significa entrar em um grande bazar onde os atuais 30 membros devem usar armas e sistemas compatíveis entre si.

O movimento pode favorecer a exportação de produtos como lançadores de foguetes antitanque NLAW, estrelas na guerra ucranianamas há dúvidas sobre o impacto, por exemplo, na venda do Gripen.

O caça americano F-35 já venceu o sueco em duas licitações recentes, incluindo uma para o fornecimento de 64 aeronaves para a Finlândia, e se estabeleceu como o padrão do bloco ocidental.

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