Como Elza Soares preparou sua despedida com show no Municipal – 12/05/2022 – Ilustrado

“Vou me despejar neste palco de forma que ninguém me tire do grão da madeira”, é o que diz Pedro Loureiro, empresário da Elza Soares nos últimos sete anos, ouvido do cantor. A frase, sobre a arquitetura do Theatro Municipal de São Paulo, foi dita em 2020, quando planejavam gravar um espetáculo do artista conhecido como a voz do milênio.

A essa altura, uma gravação no espaço nobre – onde, ela disse às pessoas próximas a ela, ela nunca era bem-vinda – ainda não estava nos planos. “Ela disse ‘vai ter Elza enraizada em todo esse palco'”, diz Loureiro, antes de soltar uma frase muitas vezes repetida por quem está ao redor da cantora. “Aquela mulher já sabia.”

Elza morreu em 20 de janeiro, aos 91 anos, miserável dois dias depois de derramar no município, onde gravou um disco, lançado nesta sexta-feira, e um filme ao vivo revendo uma carreira tão importante para a cultura brasileira. Foi o último ato de uma trajetória inspiradoracheio de percalços, que terminou com uma redenção que, tão simples, parece ter sido orquestrada pelo artista.

O processo que culminou na gravação na Câmara Municipal remonta a 2015, quando Elza mais uma vez passou do ostracismo para aclamação, com o disco “A Mulher do Fim do Mundo”, um novo disco retumbante. A partir daí, Loureiro assumiu o cargo de empresário e desenvolveu uma relação “de pai e filho” com o cantor.

Depois de anos com uma agenda curta e lançamentos raros, Elza queria fazer o máximo de shows que seu corpo aguentasse. e passou seus últimos anos frequentando assiduamente o estúdio de gravação Deck no Rio de Janeiro. “No final de 2021, ela era incrível. Antes, ela vinha às 16h e saía às 20h, mas aqui em novembro ela era um monstro. Tinha sessões que duravam até 1h. Ela estava muito feliz, sabendo o que queria cantar.” , diz Rafael Ramos, Produtor de “Planeta Fome” e “Viva no Municipal”.

Ele lembra que houve fases em que ela parecia mais cansada, ela só entrava no estúdio e cantava, mas nos últimos meses ela tinha uma disposição inabalável. Elza não era de fazer muitos takes, que ela ouvia e escolhia com cuidado, mas estudou cada música antes de entrar no estúdio. “Ela gostava de chegar preparada, mas sempre gravou como se estivesse se divertindo.”

Elza não tinha mais a mesma vontade de cantar músicas que estiveram em seu repertório ao longo de sua carreira, como “Se Acaso Você Chegasse”, de 1959, mas teve alguns favoritos, como “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha. Pediu espaços instrumentais nas músicas para “tocar” com sua voz, queria gravar “Meu Guri” em voz e piano tocado por um negrodemorou para lembrar de “Dura na Queda”, música que Chico Buarque compôs para ela há 20 anos.

Ele disse que cantar era seu maior remédio, mas, mesmo nos momentos mais emocionantes, não gostava de ser visto como vulnerável. “Você a sentiu nostálgica, mas ela não se emocionou. foi muito forte. Quando você estava cantando ou falando sobre assuntos delicados, você sentia a dor, mas não chorava na sua frente.”

O álbum ao vivo e o repertório cinematográfico reúnem momentos de toda a carreira, escolhido a dedo pela cantora, que se conectou com as músicas por meio de memórias — o primeiro show em que ela cantou determinada música, do compositor, algum acontecimento de sua vida. Elza ainda não tinha registro ao vivo. que abrangem sua carreirae realizar esse trabalho havia se tornado seu último grande desejo e obsessão.

Nos últimos anos, ela quis estar no palco sempre que possível e desafiou os limites do próprio corpo, já atormentado por problemas de longa data na coluna e na clavícula e dores nos pés, que limitavam seus movimentos.

“Quando foi Conceição [seu sobrenome]vimos uma senhora pequena e frágil. Mas quando ela começou a se maquiar, ela se transformou em um monstro. Parecia ter dois metros de altura. Sua voz, seu olhar, tudo nela mudou muito. Mas tínhamos que entender que era um corpo de 91 anos”, conta Vanessa Soares, neta da cantora, que também cuidou da carreira e morou com ela nos cinco meses que antecederam sua morte.

Foram Soares e Loureiro que abrandaram o ímpeto de Elza, que gravou no Municipal durante dois dias em sessões intensas que não a impediram, no final das gravações, de querer jogar o seu tradicional buraco, o jogo de cartas pós-espetáculo. “Ela não gostava de tomar café da manhã no hotel, mas em suas últimas viagens ela queria descer, conversar. Parece que minha avó estava preparando as bases para se despedir.”

“Ao Vivo no Municipal”, financiado pela Lei Rouanet, deveria ter sido gravado há dois anos, mas foi adiado pela pandemia. Durante as gravações, Loureiro conta que se sentia uma criança no recreio.

“Ela estava dançando com os ombros, ela estava feliz, rindo, despreocupada. Ela estava sempre preocupada com o resultado final, o penteado, a roupa, os timbres. Mas desta vez, ela estava livre, confiante. Achamos que seria um tendência para os próximos anos… Mal sabia eu que ela sabia que estava fazendo seu último trabalho.”

Nos últimos anos, Elza criou um relacionamento especial com fãs, como Paulo Moura, dono de seu fã-clube oficial, com quem mantinha uma relação íntima, na qual passava semanas ou meses na casa do cantor, em Copacabana. Ela insistiu que ele ficasse lá quando fosse ao Rio.

Moura lembra que conversaram por horas e, como ele é sociólogo, o assunto várias vezes acabou na política. “Lembro-me dela muito brava, deitada na cama, perguntando ‘cadê o moço, meu Deus?’, com aquelas expressões que só ela tinha. ‘Como você pode não ir lá fora? Como você pode deixar isso acontecer?’, referindo-se ao atual governo. Ela se sentiu letárgica.”

Ele conta que Elza não gostava de ouvir suas próprias músicas, mas era fanática pelo cantor mexicano Luis Miguel – e brincou dizendo que estava apaixonada por ele. Ela relacionou a música “Drão”, de Gilberto Gil, ao filho Garrinchinha, que morreu em um acidente de carro em 1986. reivindicou as cores e a camisa do Brasilque para ela havia sido sequestrado, e muitas vezes ele verbalizava seu amor pelo país.

Moura foi um dos poucos convidados – a maioria, a pedido de Elza, negros e pessoas que nunca haviam pisado no Municipal — assistindo a uma das três partes do filme. Ele conseguiu encontrar sua amiga novamente depois de dois anos falando com ela apenas pelo telefone. “Comecei a chorar e tremer muito. Ela é a pessoa que transformou minha vida, passei meus últimos anos procurando essa mulher. E era o DVD que ela tanto sonhava. Muita coisa aconteceu, um ciclo se fechou. Ela foi até homenageado no desfile da Juventude Independente de Padre Miguel. É como dizer: ‘Já fiz, vou’.”

Elza tinha um senso de humor peculiar e costumava brincar com todos ao seu redor. Na véspera de sua morte, ela vestia a camisa do Flamengo, da qual era torcedora, e sua zeladora, a botafogense Mônica, brincou que jogaria alvejante no uniforme. “Ela riu, olhou para mim e disse: ‘Vanessa, diga a ela quem paga ela'”, conta a neta.

No ano passado, ele também contou sobre sua intensa e complicada relacionamento com Garrincha para o documentário “Elza & Mané”, de Globoplay. Era um assunto sobre o qual ela não falava com ninguém. “Eu era muito jovem, mas minha avó não nos deixava ver nada. Só fiquei sabendo de cenas chocantes assistindo ao documentário.”

Mas, conta a neta, Elza partiu em paz com o passado. “Por mais chapada que estivesse, ela estava calma. Ela dizia ‘deixa pra lá’ e acabou. Ela preferia apagar as memórias para não sofrer.”

Nos últimos meses, Elza se hospedou na casa da neta. ela estava feliz com a participação de Linn da Quebrada no Grande irmão Brasilencontrou parentes, distribuiu piadas e costumava assistir aos jogos do Flamengo. Ela pedia seu prato favorito, uma receita de berinjela que ela ia para a cozinha ensinar quem estava pilotando o fogão. Se sua despedida foi orquestrada como as pessoas ao seu redor acreditam, ela também fez questão de escolher o dia da partida, o mesmo da morte de Garrincha, 39 anos depois.

Elza morreu em sua cama, em casa, depois de praticamente dizer ao marido da neta que estava deixando este mundo. Mas, dois dias antes, ela havia deixado claro que iria cantar até o fim.

“Faltam oito minutos para terminar as gravações”, diz Loureiro. “Cheguei atrasada, não daria para gravar ‘Mulher do Fim do Mundo’. Cheguei na Elza e perguntei: ‘meu amor, você vai cantar até o fim?’. Ela disse ‘claro’. Tanto no vídeo quanto no áudio, a última música cantada por Elza Soares na vida já valeu a pena. Um take perfeito, em que ela improvisou no final. Ela diz ‘deixa eu cantar até o fim’ e silencia. Ela leva respira fundo e diz ‘até o fim’.”

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