Bailarino brasileiro no Bolshoi conta por que deixou a Rússia – 12/05/2022 – Ilustrado

Na tarde de quarta-feira, o corpo de balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro realizava um dos últimos ensaios para a estreia de “O Lago dos Cisnes”, de 1877, composto por Piotr Ilitch Tchaikovsky e coreografado por Marius Petipa.

Nas alas, era preciso evitar braços, pernas, troncos, corpos, que ficavam estendidos no chão esperando a entrada do local. Durante o intervalo, o bailarino David Motta Soares, 25 anos, ele desceu do palco e, com passos lentos, deslocou seus 1,83 metros de altura até a última fila da platéia, onde se acomodou em uma das poltronas.

Há pouco mais de dois meses, Soares anunciou nas redes sociais que estava abandonando o sonho de qualquer profissional da dança, o cargo de solista principal do Bolshoi, o balé mais famoso do mundo, que fica em Moscou. Outros brasileiros que trabalharam no país, como Victor Caixeta, ex-Mariinsky, e Evandro Bossle, ex-Stanislavski, eles também decidiram suspender suas carreiras, em um gesto contra a guerra ucraniana e em solidariedade com seus colegas no país atacado por tropas russas.

“Nós, artistas estrangeiros na Rússia, fomos colocados no fogo cruzado porque nos pediram para nos opor à guerra, mas trabalhávamos para uma empresa estatal e não podíamos dizer nada”, diz ele, com um leve sotaque russo.

Soares diz que ninguém do Bolshoi esperava a guerra e que a notícia da invasão da Ucrânia pegou os dançarinos –e o mundo– de surpresa. Assim, no início de março, ele separou algumas malas e, quase sem opções de voos internacionais, comprou uma passagem só de ida para Istambul. Sem saber para onde ir, aceitou a sugestão de um amigo italiano para passar um tempo com a família em Milão.

“Lembro que quando a guerra estourou, Moscou estava em silêncio absoluto, em parte porque ninguém comentava o que estava acontecendo. Todos pareciam congelados”, lembra ele.

Na Itália, Soares teve que conciliar a dor de deixar um país onde morava sozinho desde os 12 anos e as negociações com companhias estrangeiras, ávidas pelos talentos dos principais teatros russos. O bailarino revela, no entanto, que sua decisão de ingressar no Ballet Estadual de Berlim, na Alemanha, para onde acabou indo, já vinha sendo planejada há algum tempo – e só foi acelerada pela guerra.

“Pelo lado profissional, eu não sairia do Bolshoi, porque você olha para o outro lado e se depara com os melhores professores e coreógrafos do mundo inteiro. Mas no lado pessoal, já senti falta de um calor familiar. desta vez sozinho Minha família me visitou muito pouco na Rússia”, diz ele.

Depois de chegar a um dos postos mais altos do Bolshoi, Soares pôde escolher para onde iria. Em Berlim, assumiu o papel de solista principal para cumprir o desejo de longa data de se aventurar em repertórios de dança moderna e contemporânea, aproveitando sua formação clássica. Até agora, ele tem apenas algumas impressões sobre a capital alemã, pois ficou lá apenas uma semana, no início de abril.

Enquanto ele aprecia ter se mudado para um país livre, ele tem um certo medo da liberdade. Questionado sobre o tempo livre em Moscou, Soares ri. Não tinha vida social e trabalhava todos os dias das dez da manhã às dez da noite. Ele diz que a vida agitada de Berlim pode atrapalhar o desempenho no palco.

Na Alemanha, Soares recebeu um telefonema da primeira bailarina da Prefeitura do Rio de Janeiro, Claudia Mota. Ela o convidou para ser seu parceiro de cena, na última produção de “O Lago dos Cisnes” de sua carreira.

Assim, Soares viverá, pela primeira vez, Siegfried, um jovem que se apaixona por Odette —princesa interpretada por Mota—, aprisionada no corpo de um cisne pelo feiticeiro Von Rothbart. Encenado em quatro atos, o balé, que estreou no Bolshoi, agora será regido no Municipal por Tobias Volksmann. Acostumado a produções que seguem rigorosamente a coreografia de Marius Petipa, Soares atuará em recitais com adaptação de Jorge Teixeira e direção geral de Hélio Bejani.

Mesmo feliz por estar feliz no Rio de Janeiro, onde dançou pela primeira vez em 2018, ele se sente incomodado com o tratamento dado à dança no país e exige apoio da população e das autoridades para melhorar a infraestrutura Municipal.

“É uma casa maravilhosa, mas é uma pena um teatro desse não funcionar. O corpo de baile, por exemplo, não dançou por dois anos. Agora, reaberto, o balé vai dançar dois shows na temporada. É muito pouco”, diz. “Por que há tão poucos bailarinos no Municipal? Porque todo mundo sai do país. Os brasileiros adoram assistir balés estrangeiros, mas esquecem que aqui tem companhias.”

Ele não rejeita a possibilidade de encerrar a carreira no teatro, mas diz que a estrutura teria que mudar muito. “Não dá para pular em um piso de madeira assim, não dá para dançar sem amortecedor. Para podermos carregar essa emoção, é preciso ter boas salas de ensaio, camarins adequados, fisioterapeutas mesmo durante o exposição.”

Em novembro do ano passado, uma reportagem deste jornal revelou a precariedade das instalações do. Para os bailarinos, dançar no palco é sinônimo de risco de lesão, devido à ausência do chamado “piso suspenso” — uma espécie de amortecedor. Até o momento, o piso não foi instalado. Na altura, a presidente da Câmara Municipal, Clara Paulino, disse que estavam a decorrer processos licitatórios para reparar a estrutura do edifício.

Enquanto isso, Soares parece relutante em dizer que está aproveitando o tempo no Rio. Ele diz que veio para dançar. No máximo, ele vai à praia nos finais de semana. Da Rússia, ele recebe mensagens de amigos do Bolshoi que informam sobre a continuação da temporada. “A vida continua.”

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